quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Carro da Tesla é lançado ao espaço


O Roadster da Tesla após o lançamento, com a Terra ao fundoAP
Um boneco vestido com roupas de astronauta sentado no banco do motorista de um veículo Tesla vermelho, com a Terra ao fundo. A imagem que mais parece uma montagem mal feita no Photoshop é uma fotografia real, capturada nesta terça-feira, após o lançamento bem sucedido do Falcon Heavy, da SpaceX, um dos mais poderosos foguetes espaciais já construídos, atrás apenas do Saturn V do Programa Apollo, que levou o homem para a Lua. O feito marca o início de uma nova era da exploração espacial, com uma companhia privada alcançando a capacidade tecnológica para enviar humanos para o espaço
— A missão saiu tão bem quanto se podia esperar — disse Elon Musk, diretor executivo da Tesla e da SpaceX, após o lançamento. — Eu tinha a imagem de uma explosão gigantesca na plataforma, com uma roda quicando ladeira abaixo e o logo da Tesla caindo em algum lugar. Felizmente, não foi isso que aconteceu.
O lançamento foi realizado na plataforma de lançamento 39A, no Centro Espacial Kennedy da Nasa, em Cabo Canaveral, na Flórida. O local também serviu de ponto de partida para todos os lançamentos do Programa Apollo em direção à Lua, entre 1968 e 1972, além de ter sido utilizado para a maioria dos lançamentos de ônibus espaciais.
Setenta metros de altura, 27 motores
O Falcon Heavy é um foguete imenso, com um total de 27 motores capazes de carregar carga de 63,8 toneladas na órbita baixa da Terra, o dobro do mais poderoso foguete em operação, o Delta V. Ele tem 70 metros de altura e diâmetro de 12 metros na base. Basicamente, o Falcon Heavy é impulsionado por três foguetes Falcon 9, já em operação. Após o lançamento, dois deles retornaram a Cabo Canaveral e pousaram. O terceiro, que foi direcionado para uma plataforma flutuante, não conseguiu alcançar o alvo e caiu no mar.
O Falcon Heavy é o mais poderoso foguete espacial em operação JIM WATSON / AFP
Preço de lançamento três vezes menor
O que mais impressiona no feito da SpaceX não é exatamente o poder do foguete, mas o custo. Segundo a companhia, o preço por lançamento do Falcon Heavy é três vezes menor que o do Delta V. Estimativas indicam que o custo seja de “apenas” US$ 90 milhões. O Space Launch System, projeto similar da Nasa, tem custo previsto de US$ 1 bilhão por lançamento.
Isso permitiu à SpaceX realizar a ação de marketing com o Roadster da Tesla, empresa também dirigida por Elon Musk. Trata-se do primeiro carro já enviado para o espaço, desconsiderando os veículos de exploração. Normalmente, os lançamentos de teste carregam cargas de concreto ou experimentos científicos, não um conversível elétrico com um manequim. Ao transportar o veículo, a SpaceX conseguiu visibilidade extra para o lançamento.
— Na verdade não parece real, é uma loucura — disse Musk, em vídeo publicado no Twitter logo após o lançamento, que mostrava o Tesla em órbita.
Dois dos propulsores pousaram em segurança após o lançamento HANDOUT / REUTERS
O carro tinha três câmeras instaladas para registrar o feito e uma placa com os nomes dos 6 mil funcionários da SpaceX. No painel, uma placa dizia: “Não entre em pânico”, enquanto o rádio tocava “Space Oddity“, sucesso de David Bowie. Na placa de circuitos do carro, uma mensagem para possíveis civilizações extraterrestres que encontrem a cápsula: “Feito na Terra por humanos”. A bordo também estava uma espécie de CD extremamente resistente, com o clássico da ficção científica “Trilogia da Fundação”, de Isaac Asimov, armazenado.
Marte em seis meses
Se tudo correr como o planejado, o Roadster da Tesla alcançará Marte em seis meses e depois seguirá para o Cinturão de Asteroides, entre Marte e Júpiter. A expectativa é que a cápsula com o veículo fique na órbita solar, indefinidamente.
Pelo Twitter, o presidente dos EUA, Donald Trump, enviou os cumprimentos a Musk e à equipe da SpaceX, ressaltando que o lançamento do Falcon Heavy “mostra a engenhosidade americana em seu melhor nível”. Musk respondeu: “Obrigado em nome da SpaceX. Um futuro emocionante nos aguarda!”.
Da Nasa vieram os mais relevantes cumprimentos: a agência espacial americana é parceira e cliente da SpaceX em missões espaciais e no compartilhamento da infraestrutura de lançamentos.
— O lançamento bem sucedido de um novo veículo no voo inaugural é um feito significativo do qual eles podem se orgulhar — disse Bob Cabana, diretor do Centro Espacial Kennedy.
Para o futuro, o Falcon Heavy deve ser usado para colocar satélites de grande porte em órbita, assim como transportar equipamentos para a Lua, Marte ou outros pontos distantes. Para a missão humana a Marte, antecipada por Musk, um foguete ainda mais poderoso será construído.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Museu Nacional ganha homenagem linda da Turma da Mônica

A perda do acervo e do prédio do Museu Nacional, no incêndio recente que destruiu 20 milhões de peças e 200 anos de história, é e sempre será irreparável. Ainda assim, diversas organizações internacionais vêm se reunindo para tentarem ajudar na reconstrução da mais importante e antiga instituição científica do Brasil. E, junto da ajuda material propriamente, outros gestos afetivos, simbólicos, em poéticos tributos, podem ajudar a manter viva a memória do Museu – e da tragédia que o acometeu, a fim de que algo assim não se repita. Foi o que singela e comoventemente uma história da Turma da Mônica fez.
Em uma bonita e, ao mesmo tempo, provocativa homenagem, quem “recebeu” o acervo destruído do Museu foi, na história, a Turma do Penadinho. As múmias Harsiese, Pestejef e Hori, os dinossauros e até o crânio Luzia chegaram no cemitério, onde a recepção calorosa lembrou com doçura e crítica a importância do acervo. “Eu vejo que a alma do museu continua aqui”, diz Dona Morte, nos quadrinhos. “Porque a história nunca morre de fato, se a gente a mantiver viva”.
A história foi precisamente chamada de “Insubstituível”, e compartilhada na fanpage oficial da Turma da Mônica. O post foi dedicado “com carinho” à instituição, utilizando a hashtag #MuseuNacionalVive.

Eleições 2018: Que candidato a presidente 'bateu' e 'apanhou' mais nas redes sociais?


Palácio do Planalto, em Brasília

"Haddad, Ciro e Alckmin trocam ataques após pesquisa Ibope". "Ciro bate no PT, mas poupa Lula (...)". "Campanha de Alckmin não sabe se bate em Bolsonaro ou Haddad". Quanto mais nos aproximamos do dia 7 de outubro, mais agressivo é o tom dos candidatos contra seus adversários, e títulos como os transcritos acima ficam mais frequentes em sites de notícias e jornais.

Mas e se fosse possível medir os ataques de candidatos presidenciais a seus concorrentes para saber, afinal, quem adotou a estratégia mais agressiva e quem "apanhou" mais?

Nas redes sociais, pelo menos, é possível. A pedido da BBC News Brasil, pesquisadores da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) analisaram as postagens dos principais candidatos à Presidência da República no Twitter e no Facebook, para saber quem é o mais "brigão" entre os presidenciáveis.

Eleições 2018: as propostas de todos os candidatos a presidente do Brasil
No Twitter, um resultado que talvez surpreenda parte do eleitorado: no último mês, o mais agressivo foi Geraldo Alckmin (PSDB). Os alvos preferenciais do tucano foram Jair Bolsonaro (PSL) e, principalmente, a chapa agora liderada por Fernando Haddad (PT).

Já no Facebook, o mais agressivo foi Jair Bolsonaro (PSL). No período analisado pela Dapp, o perfil oficial do ex-capitão fez 33 posts dirigidos a outros atores políticos (colegas de partido, adversários, artistas e pessoas públicas). Desses, 24 (ou 72%) foram críticas e ataques.

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Ciro Gomes (PDT) buscou fazer a linha "paz e amor" em seus perfis oficiais: no Twitter, publicou apenas dois ataques contra Bolsonaro e um contra Alckmin, no período analisado pela Dapp. No Facebook, só fez três postagens agressivas contra outras pessoas - de um total de 27 posts.

Agressivo é eficaz?

Os levantamentos permitem afirmar também que Haddad e Bolsonaro foram os mais atacados pelos adversários; que Marina Silva (Rede) passou relativamente incólume pela pancadaria online; e também que o PT "escolheu" o PSDB como adversário principal nas redes.

No Twitter, a Dapp analisou 3.302 tuítes dos candidatos e de seus principais aliados, publicados ao longo do período de um mês encerrado na terça-feira (18), quando a análise foi encaminhada à BBC News Brasil. Já no Facebook, foram analisados 1.894 postagens publicadas pelos presidenciáveis do dia 1º de julho até 16 de agosto deste ano.

"Mais do que bater simplesmente, o que a gente tem visto na campanha é a desconstrução dos adversários. Pegar um ponto fraco da outra candidatura e amplificar, colocar no holofote. É o que o Alckmin fez com algumas propostas da política tributária do Bolsonaro (como as ideias de mudança no Imposto de Renda e a criação de um novo tributo). Então, não é exatamente agredir (pessoalmente), mas fazer uma propaganda negativa a respeito do outro", diz Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP.

Ao longo da corrida eleitoral, as campanhas usaram outros meios para "desconstruir" os adversários: Alckmin, por exemplo, dedicou parte significativa de suas inserções de TV para atacar Bolsonaro e Haddad; e nas últimas semanas Marina fez declarações contundentes contra os principais partidos brasileiros, como o PT, o PSDB e o MDB.

Além disso, uma parte da artilharia contra adversários na internet passa ao largo dos perfis oficiais dos candidatos no Twitter e no Facebook. Sátiras e memes contra presidenciáveis são comuns em grupos de WhatsApp, por exemplo.

Para Ortellado, porém, os perfis oficiais dos candidatos no Twitter e no Facebook funcionam como uma espécie de "termômetro" do tom da campanha: um candidato mais agressivo nestas redes sociais tende também a atacar mais os adversários em declarações públicas ou na propaganda eleitoral. A estratégia usada pelos candidatos nas redes segue a orientação geral para o resto da campanha.

Dos cerca de 210 milhões de brasileiros, pouco mais da metade (130 milhões de pessoas) são usuários ativos de redes sociais, segundo relatório de janeiro de 2018 da empresa Hootsuite.

Conheça abaixo algumas das principais conclusões da pesquisa da Dapp-FGV.

No Twitter, Bolsonaro 'terceiriza' ataques para seus filhos
Ao longo do último mês, os ataques feitos pelo perfil oficial de Bolsonaro no Twitter se dirigiram principalmente a Lula e Haddad: de 28 mensagens críticas aos seus principais adversários na disputa presidencial, nada menos que 21 (ou 75%) foram contra o ex-presidente e seu sucessor.

Direito de imagemZECA RIBEIRO / AGÊNCIA CÂMARA
Image caption
Eduardo Bolsonaro é o filho mais velho do candidato do PSL e deputado federal por São Paulo
No mesmo período, os perfis oficiais de seus filhos que têm carreira política (Carlos, Eduardo e Flávio) publicaram 119 mensagens com críticas a outros atores políticos, e, destas, 108 foram ataques aos principais concorrentes: Lula/Haddad, Marina, Alckmin e Ciro.

Novamente, quem mais apanhou do clã Bolsonaro foi a chapa hoje comandada por Haddad: os petistas foram alvo de 53 dessas 108 postagens (ou 49%). Em seguida, o mais atacado é Alckmin, com 29 posts (ou 26%). Marina e Ciro receberam 13 "pancadas" cada um dos filhos de Bolsonaro, no Twitter.

A sublocação dos ataques foi acentuada depois que o ex-capitão foi esfaqueado num ato de campanha em Juiz de Fora (MG), no dia 6 de setembro. Logo depois do ataque, os perfis oficiais de Bolsonaro passaram a expor o lado humano do candidato e evitar postagens agressivas.

Marina derreteu nas pesquisas sem apanhar
É parte do folclore político brasileiro a ofensiva do PT contra Marina em 2014. Em setembro daquele ano, a então candidata pelo PSB começou a derreter nas pesquisas depois de tornar-se a vidraça preferencial de Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB).

É célebre o filmete petista no qual a comida desaparecia do prato de uma criança pobre, enquanto a narração lembrava que Marina pretendia dar mais autonomia ao Banco Central. Marina, que chegou a liderar as pesquisas em 2014, caiu na reta final e acabou em terceiro lugar.

Marina Silva (Rede) foi praticamente ignorada por seus adversários nas redes sociais
Mas, em 2018, Marina parece estar derretendo sozinha, sem ser o alvo preferencial de seus adversários. Em 22 de agosto, a candidata da Rede Sustentabilidade tinha 16% das intenções de voto, segundo levantamento do Datafolha. Na última pesquisa do instituto, da última quinta-feira, ela aparece com 7%.

No Twitter, Marina foi alvo de uma postagem negativa de Bolsonaro, apenas. Os filhos do candidato a atacaram 13 vezes no período. Mas nem Ciro, Geraldo ou Haddad se mobilizaram para atacá-la uma vez sequer na rede social, ao longo do último mês.

"Ao menos nas redes dos oficiais dos outros candidatos, Marina foi muito pouco atacada. Ela própria ataca Jair Bolsonaro, como alvo preferencial", diz o sociólogo e pesquisador do Dapp-FGV Amaro Grassi. A candidata da Rede publicou 38 tuítes com ataques a outros presidenciáveis no período, e 13 deles foram críticos a Bolsonaro. Outros 5 se dirigiram contra Lula e Haddad.

No Facebook, de 33 postagens de Marina com referências a outros atores políticos analisadas, 14 (ou 42%) são ataques.

Num debate na RedeTV!, em 18 de agosto, Marina fez um discurso duro contra Bolsonaro a respeito da igualdade salarial entre homens e mulheres. Segundo Grassi, foi explorando este nicho que Marina fez a maioria de seus ataques ao candidato do PSL.

"Aquilo repercutiu, e a campanha percebeu que havia esse nicho político para criticar Bolsonaro, na questão das mulheres. Ela tratou de explorar este caminho", avalia ele.

O PT 'escolheu' Alckmin como o adversário principal
Ao longo do mês analisado pelo levantamento do Dapp-FGV, os perfis oficiais do ex-presidente Lula, de Haddad, da candidata a vice Manuela D'Ávila (PC do B) e da ex-presidente Dilma no Twitter fizeram 51 postagens críticas a atores políticos. E, dentre os quatro principais adversários de Haddad na disputa presidencial, Alckmin foi o que mais "apanhou" dos petistas: foram 19 mensagens negativas contra o tucano.

'PT tentou 'escolher' o PSDB como adversário', diz Amaro Grassi, da Dapp-FGV
A conta do próprio Haddad publicou 10 tuítes com críticas a Alckmin, e não fez qualquer ataque aos demais - nem mesmo a Bolsonaro. Já os aliados de Haddad dirigiram nove ataques a Alckmin, e outros doze a Bolsonaro. "O povo tem memória. Sabe o que foram nossos 12 anos de governo nesse país. E sabem o que eles fizeram depois que perderam a quarta eleição em 2014", disse Haddad numa das mensagens, referindo-se de forma indireta ao PSDB.

"Curiosamente, o PT tentou 'escolher' novamente o grupo com o qual polarizaram nas últimas seis disputas presidenciais", diz Amaro Grassi.

No Facebook, Haddad evitou ataques a outros candidatos até o momento, segundo o Dapp: a prioridade do petista tem sido ligar sua imagem à do ex-presidente Lula, preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde o dia 7 de abril de 2018. A maioria das postagens do petista no Facebook falava dos apoios recebidos de políticos e artistas. Das 35 postagens de Haddad no Facebook, 18 eram mensagens de apoio à libertação de Lula.

Haddad e Bolsonaro foram os mais criticados
No período analisado, Haddad foi o mais atacado pelos adversários nas redes sociais, seguido por Bolsonaro. Os dois lideram as pesquisas de intenção de voto: no último levantamento Ibope, divulgado nesta segunda-feira (24), Bolsonaro aparece com 28% e Haddad, com 22%.

Bolsonaro foi o destinatário de 38 mensagens críticas de seus adversários no Twitter, no último mês. Seus principais agressores nas redes foram Marina (13 tuítes) e Alckmin (24 posts). Levando em conta também os perfis de aliados dos presidenciáveis, Bolsonaro recebeu 67 ataques durante o período - e os mais agressivos contra o candidato do PSL foram os perfis ligados a Haddad.

Bolsonaro (dir.) ao lado do economista Paulo Guedes, em visita deste último ao hospital Albert Einstein, em São Paulo
O ex-capitão poderia ter sido até mais atacado - seus adversários evitaram fazer críticas diretas a ele nos dias que se seguiram ao atentado sofrido pelo candidato. No dia do atentado, Alckmin postou uma mensagem de solidariedade a Bolsonaro, desejando que ele se recuperasse "rapidamente".

O líder das pesquisas só voltaria a ser mencionado por Alckmin no Twitter no dia 11 de setembro. "Minha solidariedade ao Bolsonaro, mas discordo totalmente das ideias dele. Veja que ele passou 20 anos no Congresso votando do ladinho do PT", escreveu.

No mesmo período, Haddad foi alvo de 56 mensagens negativas de seus adversários no Twitter. E, considereados os perfis dos principais aliados de seus competidores, o ex-prefeito de São Paulo foi alvo de 120 menções negativas.

Quem mais atacou Haddad no Twitter foi Alckmin: são 30 postagens negativas do perfil oficial do tucano contra o petista neste período. Mas, considerando os perfis aliados, quem mais bateu no petista foram os filhos de Bolsonaro: dispararam 53 mensagens contra ele no período pesquisado.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45634352

Artes sobre arte urbana

A arte urbana como expressão do direito visual à cidade

“Não busque luxo em meio ao lixo da cidade morta
Pra se livrar dos bichos da cidade morta
Pra se livrar dos vícios da cidade”.
Baiana System- Terapia
Como primeiro passo desse rolê (gíria utilizada entre os pichadores para se referir a prática de sair pela cidade para pichar) tomemos as ruas da cidade como caminho de percepções. A cidade – com sua pluralidade de signos e significados, seu cotidiano de encontros e de violência, seus valores e preços, e, mais importante, com seus sujeitos, representa o espaço por excelência da vida e da produção dos direitos.
Todavia, há que se admitir que tamanha circulação de interesses faz do espaço público lugar do conflito, da exposição de diferenças. Como reação a essas contradições, insurge-se nas cidades a arte urbana (grafite, pichação, lambe-lambe, tags, adesivos, estêncil, o grapixo, o bombing, as frases de conteúdo poético e político etc) manifestada por um conjunto de valores, práticas e modos de vida formadores de uma identidade. Nesse contexto, a inscrição do indivíduo na cidade, em sentido político, se dá justamente pela realização de suas culturas.
Admitir as manifestações dos sujeitos sociais na cidade, as ocupações, os usos, as formas de expressão cultural, para além das formalizações, é entender e valorizar o uso e democratização da cidade, à luz do Texto Constitucional que preleciona ser dever do Estado a garantia do pleno exercício dos direitos culturais por todos, apoiando e incentivando a valorização e difusão de manifestações culturais, conforme seu artigo 215.
É necessário reconhecer que as ruas são espaços constantes de construção de novos direitos. Ouvir o saber das ruas através da arte urbana é dar visibilidade e legitimidade às formas de vivência e expressão na cidade que consistem em efetiva participação política dos sujeitos na formação do patrimônio cultural urbano.
A fonte primeira de manifestação do Direito são as inter-relações sociais. As construções e práticas legais, que se pretendam justas e democráticas, não podem afastar-se da compreensão dos novos movimentos que ocupam as cidades. Insurgem-se da prática social a reivindicação de direitos novos, muitas vezes, em contraposição ao ordenamento jurídico posto.
A criminalização da arte urbana, sob a justificativa de uma suposta necessidade de ordem – cujos atributos são higiene, simetria e beleza dos espaços –, representa exemplo concreto desta conjuntura. Como resistência, mas, sobretudo, como sobrevivência a este modelo segregacionista de urbanização, a arte urbana avançam sob o tecido das cidades, imprimindo suas identidades por meio de uma linguagem própria e contribuindo para a ressignificação desses territórios.

+[ASSINANDO O +MAIS JUSTIFICANDO VOCÊ TEM ACESSO À PANDORA E APOIA O JORNALISMO CRÍTICO E PROGRESSISTA]+


A mesma cidade que nega a arte urbana, sob um falso pretexto de limpeza visual e de proteção ambiental, acolhe sem restrições o fluxo insistente dos signos produzidos pela publicidade. Na visão da cidade como bem de consumo, até mesmo a linguagem e a estética tornam-se valor de troca, pois é importante que se desperte desejos de consumidor.
É preciso reconhecer a arte urbana como expressão legítima da re-apropriação e ocupação das cidades pelas minorias, sendo assim, manifestação de um Direito Visual à Cidade. É a consolidação da representação artística e cultural da cidade, manifestação essa, em grande parte, de cunho identitário, estético e político de determinado grupo, especialmente jovens vindos da periferia.
Essa política repressiva e criminalizatória destinada aos movimentos protagonizados pela juventude periférica tem provocado um cenário preocupante de violência, produzido, principalmente, pelas instituições de controle penal – seja pela sua ação comissiva, seja por omissão. Segundo o Mapa da Violência de 2014, dos 56 mil homicídios que ocorrem por ano no Brasil, mais da metade são entre os jovens e, dos que morrem, 77% são negros e moradores da periferia. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou esses casos de violência contra jovens negros e pobres no Brasil concluiu que essa parcela da população vem sendo vítima de uma espécie de “genocídio simbólico”.
O apagamento das identidades visuais expressas nas artes urbanas constitui uma violência e uma ausência de diálogo com a sociedade, como recentemente vem ocorrendo na cidade de São Paulo, sob a gestão de João Dória (PSDB): ao mandar apagar grafites, promove-se uma desumanização da cidade, retirando aspectos que compõem o cotidiano urbano, apaga-se a própria cidade. O caráter higienista da “acinzentação” da cidade é nítido até mesmo no batismo do projeto: “Cidade Linda”. Em 2008, o documentário “Cidade Cinza” (título que parece se adequar melhor ao projeto de Dória), abordou a luta de artistas urbanos contra as gestões que insistiam em transformar as artes urbanas em grandes painéis cinzas; em 2017, a cena se repete. O que se quer apagar que emana dos muros tem classe, raça e endereço, os marginalizados da cidade que se propõe a ser (ainda) mais cinza – apaga-se os muros tingidos de povo, marginaliza-se e aprofunda-se o genocídio contra essa população.
Essa violência institucional é elemento constante nas letras das músicas (rap, funk, hip hop) e nas pichações, grafites, estêncil, grapixo, lambe-lambe, tornando tais manifestações, além de um fenômeno cultural urbano e uma referência estética na paisagem plural das cidades, verdadeiros instrumentos de denúncia. Porém, seu desdobramento perverso é a exclusão violenta dos jovens da periferia através da criminalização de suas práticas.
Embora nem sempre a arte urbana carregue conteúdo político explícito, a imagética por elas produzida já é por si só uma forma de dar visibilidade às desigualdades sociais. Contra o tédio e os processos de exclusão da vida cotidiana, a partir de elementos ideológicos e estéticos, os jovens não apenas instituem uma subcultura do desvio, mas uma verdadeira contracultura, colocando-se como crítica aos valores formais.
O direito visual à cidade é a síntese totalizante da convergência de múltiplos fluxos de expressão urbana. O direito de aparecer na cidade é um direito de todos os cidadãos e ramifica-se nos direitos de estar e ser, no direito de ir e vir, no direito à autenticidade e à expressão. Desmontar os padrões estéticos de nosso tempo é, neste momento, a mais profunda atitude política contra o autoritarismo cotidiano e espetacular que alimenta a indústria cultural da fachada.
A Cultura de Rua, anunciada pelas pichações, grafites, adesivos, lambe-lambe, tags, estênceis, é a linguagem de resistência das juventudes periféricas. É por meio dela que falam, que se tornam visíveis e presentes para a cidade. É assim que muitas verdades da vida urbana se expressam em seus muros, e a maior de todas elas é a urgência de pensar numa cidade para se viver.
A cidade é o lugar da produção do bem comum, de sentimentos e anseios que só se concretizam na diversidade que a vida urbana oferece. O Direito à Cidade nada mais é do que o direito à vida urbana, ao uso pleno dos seus caminhos. Através da arte, da disputa das narrativas, os sujeitos coletivos enfrentam o urbanismo – criador de uma cidade legal e de outra marginal –, na busca por identidade, autonomia, participação e direitos.
“(…) que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade.” É com o auxílio das palavras lúcidas e poéticas de Leminski que encerramos este rolê pela cidade de direitos e por seus muros de escritas marginais. No percurso do Direito Visual à Cidade, da periferia ao centro, as escritas marginais urbanas provocam variadas percepções (positivas e negativas) aos seus espectadores, e a mais clara e sincera de todas elas é a compreensão de que o muro pode pertencer à rua, ao lado de fora, ao meio ambiente urbano, e não só ao dono da propriedade. O direito à cidade, sobretudo o direito visual à cidade, é também o direito à livre expressão na cidade.

Carla Mariani é Bacharela em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Integrante do NAJA – Núcleo de Assessoria Jurídica Alternativa
Gilson Santiago é Graduando em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Membro do IBDU – Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico. Integrante do NAJA – Núcleo de Assessoria Jurídica Alternativa
Claudio Carvalho é Doutor em Desenvolvimento Regional e Urbano pela Universidade Salvador. Mestre em Direito pela Universidade Católica de Santos. Bacharel em Direito pela Universidade de Taubaté. Professor adjunto em Direito Ambiental e Urbano e Agrário da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Membro do IBDU – Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico. Integrante do NAJA – Núcleo de Assessoria Jurídica Alternativa.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Bienal de Design de Londres é aberta e tem o Brasil como uma das atrações


Londres – O Brasil é uma das atrações da edição deste ano da Bienal de Design de Londres, que está sendo aberta nesta terça-feira, com o artista David Elia ficando a cargo do pavilhão do país, que terá o tema “Desmatamento”.
“Nosso objetivo é dar voz a preocupação ecológica e evocar emoções como o medo, o assombro e, o mais importante, a esperança. Os visitantes entram neste portal imaginário e sentem a beleza, a importância e a fragilidade deste ecossistema”, disse à Agência Efe o designer brasileiro, que mantém escritórios na capital britânica e no Rio de Janeiro.
O pavilhão brasileiro foi transformado em uma floresta desmatada, onde se projetam imagens da Mata Atlântica, bioma que ocupava mais de 1,3 milhões de quilômetros quadrados, em 17 estados do território brasileiro. Hoje, no entanto, só restam cerca 29% da composição original, de acordo com o Ministério do Meio-Ambiente.
A segunda edição da Bienal de Design de Londres tem como o tema “Emotional States” (Estados Emocionais, em tradução livre) e acontece na Somerset House. A abertura aconteceu hoje e o encerramento será em 23 de setembro.
“Com esta exposição pretendemos mostrar que o Reino Unido permanece aberto ao intercâmbio cultural e não só ao econômico”, explicou o diretor-artístico do evento, Christopher Turner, em entrevista coletiva.
Postagem feita pelo aluno Bernardo Gonçalves

Bienal de São Paulo 2018 é aberta ao público. 

São Paulo – A partir desta sexta-feira (7), às 9h, até o dia 9 de dezembro, a 33ª Bienal de São Paulo ficará aberta ao público. A edição desse ano terá como temas principais a presença e atenção como uma reação a um mundo de verdades prontas, no qual a fragmentação da informação e a dificuldade de concentração levam à alienação e à passividade.
O título “Afinidades afetivas” foi escolhido por conta das relações artísticas e culturais entre os artistas envolvidos no evento. Para esta edição, ao lado dos doze projetos individuais eleitos pelo curador-geral, foram convidados sete artistas-curadores para apresentarem mostras coletivas com total liberdade na escolha dos artistas e seleção das obras. A única estipulação foi que incluíssem trabalhos de sua própria autoria.
Além das exposições, um programa de encontros, palestras, performances e ativações de obra acontecem nos espaços da 33ª Bienal com periodicidade semanal. Em novembro, o simpósio “Práticas de atenção” reúne conversas, oficinas e performances em torno de um dos temas centrais do evento.
Postagem feita pelo aluno Bernardo Gonçalves

Crítica: Uma Bienal de São Paulo congelada no silêncio das formas
A 33ª edição do evento perdeu a oportunidade de ser o espelho de um Brasil ferido
Stargazer II: com curadoria da  pintora sueca Mamma Andersson, exposição foi um dos bons momentos da Bienal Foto: Edilson Dantas / Agência O GloboStargazer II: com curadoria da  pintora sueca Mamma Andersson, exposição foi um dos bons momentos da Bienal - Edilson Dantas / Agência O GloboRIO — Quando anunciado, o projeto para a 33ª Bienal de São Paulo, concebido pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, soou interessante e necessário: incluir os artistas e o público na sua concepção e montagem. Realizar uma Bienal que evidenciasse sua escassez de recursos e até mesmo seus vícios poderia ser uma excelente oportunidade para transformar a exposição no espelho para um Brasil ferido, ameaçado em sua liberdade e em sua vida cultural. O que se vê no Ibirapuera, no entanto, é uma mostra que permanece congelada na beleza e no silêncio das formas.Não há nada de errado com a beleza. Não há nada de errado com o silêncio. Uma exposição, qualquer que seja, não precisa estender faixas ou entoar palavras de ordem para estar aberta ao espírito de sua época. Em 2010, Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos partiram de um verso de Jorge de Lima (“Há sempre um copo de mar para um homem navegar”) para falar de política das mais variadas formas, inclusive daquelas mais belas.Em 2012, Luis Pérez-Oramas fez da 30ª Bienal uma exposição sutil, que se revelou extremamente transgressora a partir de um gesto simples: transformar o artista esquizofrênico Arthur Bispo do Rosário em seu centro irradiador poético, questionando hierarquias e sistemas de validação do meio de arte. Em 2016, a 32a Bienal, a cargo de Jochen Voz, radicalizou as relações entre arte e vida ao fazer da mostra literalmente um alimento: a obra do artista Jorge Menna Barreto, “Restauro”, era o único restaurante e café do prédio, e oferecia exclusivamente comida orgânica e vegetariana, muitas vezes preparada com espécies recolhidas no IbirapueraSe na história recente da exposição chamam a atenção a ousadia de transbordamentos muito heterogêneos, nesta Bienal a tônica é uma contenção que é quase timidez. Esta edição tira seu título, “Afinidades afetivas”, de duas referências: o romance “Afinidades eletivas” (1809), de Goethe, e a tese “Da natureza afetiva da obra de arte” (1949), de Mário Pedrosa.Goethe mostra como a vida tediosa de um casal aristocrata é perturbada pela chegada de dois visitantes; já Pedrosa, que acreditava na crítica como militância política, vai anunciar a ideia de “natureza afetiva” pensando no poder mobilizador da obra de arte. São dois textos que concebem afeto como perturbação e transformação. E é exatamente isso o que falta à Bienal, uma bela adormecida que não desperta para o debate e o conflito.
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/23073274-3f3-c8c/FT1086A/420/x78732738_SC-Sao-PauloSP06-09-2018-33-BienalSPAfinidades-afetivas2018Obra-de-Claudia.jpg.pagespeed.ic.Q1D6Hi1Dbg.jpgObra de Claudia Fontes é um dos projetos individuais da mostra "Afinidades afetivas" - Edilson Dantas / Agência O GloboA partir do conceito químico de “afinidade eletiva”, que norteia a obra de Goethe, Pérez-Barreiro convidou sete artistas para fazerem a curadoria de exposições com obras de suas escolhas, com a única condição de que se incluíssem nelas. O próprio curador selecionou ainda 12 projetos individuais de artistas brasileiros e estrangeiros.Isoladamente, há obras e mostras interessantes, mas o conjunto não forma um arquipélago de ilhas que se intercomunicam, e sim uma sucessão de artistas e obras que parecem ser planetas muito distantes um do outro. A falta de diálogo entre as partes faz com que perca de vista a “afinidade eletiva” fundamental: a empatia na direção do público.Na análise da mostra ponto a ponto, há, no entanto, trabalhos que valem a ida ao Ibirapuera, a começar pelo pequeno núcleo histórico dedicado a Friedrich Fröbel (1782-1852), alemão que foi o inventor do conceito de “Kindergarten”, que derivou no “Jardim de infância” que temos hoje nas escolas. Parte da curadoria realizada pelo artista espanhol Antonio Ballester Moreno (“Sentido/comum”), a sala dedicada a Fröbel procura mostrar como seus jogos e livros educativos voltados para crianças pré-alfabetização foram uma das bases para as transgressões das vanguardas modernas.Afinal, artistas como Kandinsky e Paul Klee foram ao “Kindergarten” e, a partir do método de Fröbel, entenderam as possibilidades de transgressão contidas na cor e na forma. Talvez resida neste pequeno e extremamente significativo conjunto de trabalhos um caminho que a Bienal poderia ter radicalizado como concepção geral da mostra – o lúdico e a infância como pontos de partida para desobediências e novas significações. Mas não há conversa evidente entre essa sala e outros bons trabalhos selecionados por Moreno e o restante do Pavilhão.Outro bom momento é a coletiva “Stargazer II”, com curadoria da pintora sueca Mamma Andersson. Ela seleciona artistas e obras de arte que teriam funcionado como um inventário de imagens para a formação de sua obra, entre eles seis conterrâneos de diferentes épocas e ícones russos. O segmento também inclui uma joia rara: o filme de animação “A vingança do cinematógrafo” (1912). Feito por um pioneiro da imagem em movimento, o polonês Ladislas Starevich (1882-1965), ele mostra baratas descobrindo as maravilhas e as agruras do cinema.
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/23073287-203-74d/FT1086A/420/x78699197_SCSao-Paulo-SP33-Bienal-de-Artes-de-Sao-Paulo-Artista-5Bartist5D-Waltercio-Caldas.jpg.pagespeed.ic.94l3maE2Cw.jpg"Rodtchenko", de Waltercio Caldas. Obra da mostra “Os aparecimentos” - Vicente de Mello / DivulgaçãoWaltercio Caldas assina a curadoria da mostra “Os aparecimentos”. O conjunto evidencia o processo de formação do olhar de Waltercio, sobretudo pela inclusão de brasileiros como Goeldi e Sergio Camargo. Mas a excelência de alguns trabalhos - do próprio artista-curador e de nomes como Bruce Nauman, Blaise Cendras, Gego e Armando Reverón - é perturbada pela expografia. O piso foi forrado por um questionável carpete marrom e a luz da sala é feita com lâmpadas frias, além de as obras terem pouco espaço entre uma e outra, o que dificulta sua fruição.Muito mais grave é o caminho tomado por Sofia Borges em sua coletiva “A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, na qual apresenta obras de Tunga, Leda Catunda e Sarah Lucas presas ou em frente a um fundo feito por teatrais cortinas de veludo molhado, em cores variadas.Nem a iconoclastia e a atmosfera de um barroco contemporâneo que permeiam os trabalhos selecionados poderiam justificar esta escolha cenográfica, que é quase uma ofensa – às obras e à percepção do visitante. Nos raros momentos em que esta mostra dentro da mostra encontra respiro visual fora das cortinas, é possível perceber de forma ainda mais contundente o erro do cenário, já que os bons diálogos encontram possibilidades de existência.Um dos mais fortes e felizes ocorre entre uma pintura-objeto monumental de Catunda, feita em tons de dourado, e um pequeno quadro nos mesmos tons do artista do inconsciente Artur Amora, revelado por Nise da Silveira.
https://ogimg.infoglobo.com.br/in/23073299-437-561/FT1086A/420/x78710340_SCSao-Paulo-SP33-Bienal-de-Sao-Paulo-Artista-5Bartist5D-Feliciano-Centurion-Titulo.jpg.pagespeed.ic.TB0XlID5AK.jpg"Te quiero", cobertor bordado a mão de Feliciano Centurion - Divulgação / Feliciano CenturionNos projetos individuais, chamam a atenção as salas dedicadas a dois artistas falecidos: o paraguaio radicado na Argentina Feliciano Centurión (1962-1996) e a goiana Lucia Nogueira (1950-1998), ainda pouco reconhecida e estudada no Brasil por ter passado a vida em Londres.Mesmo que Centurión parta da delicadeza do bordado para reinventar uma iconografia guarani e Nogueira do rearranjo de materiais pré-existentes para evidenciar o risco e a tensão, ambos são autores de objetos turbulentos. A exemplo do que aconteceria com o “Jardim de infância” de Fröbel, esta dupla de artistas criadores de objetos tão indisciplinados poderia ser propulsora de uma Bienal que se propôs a ressaltar a transformação afetiva das formas. Outra individual bem—sucedida é a de Nelson Félix, que apresenta obra ainda em processo na qual foi a pontos extremos do planeta, como o Alasca e o Ushuaia, para pensar uma reinvenção da paisagem. Os cáctus que crescem na direção de espetos de ferro são uma dupla raridade no Ibirapuera: abrem-se para uma interlocução com nossos tempos pontiagudos e dialogam com a arquitetura de Oscar Niemeyer. Desafiador em usa onipresença, o prédio da Bienal foi explorado como campo de criação e conflito por outras edições. Nesta, reina soberano como na desenergizada “Bienal do vazio” (28ª edição, 2008): sequer seu vão central foi ocupado. Não seria exagero dizer que, visualmente, Niemeyer é a presença mais marcante da mostra.De um modo geral, obras e exposições foram pensadas como núcleos ensimesmados, montados de costas para o lugar que os abriga e para a vida fora do prédio, que começa no parque. Também de um modo geral, a Bienal de Pérez-Barreiros — que é diretor de uma importante coleção privada em Nova York e Caracas, a de Patricia Phelps de Cisneros — apresenta trabalhos que poderiam ser vistos em qualquer galeria, e esta simplicidade, que poderia ser acolhimento, dá ao visitante uma sensação de trivialidade e domesticação. Se é adormecida, essa bela revela-se ainda, em alguns momentos, recatada e do lar.
*Daniela Name é crítica de arte.


Nome: Luísa Antunes Resende

Postagem de artes
Notícia: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/critica-uma-bienal-de-sao-paulo-congelada-no-silencio-das-formas-23073292

Queermuseu: artista picha paredes do Parque Lage com críticas à direção Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/queermuseu-artista-picha-paredes-do-parque-lage-com-criticas-direcao-23075241#ixzz5S1szGRZh stest

Gabe Passareli, mediadora LGBT da exposição, fez protesto no encerramento da mostra

RIO — As paredes da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage foram pichadas com carvão numa perfomance de protesto durante o encerramento da exposição "Queermuseu", na noite de domingo. A autora da manifestação, Gabe Passareli, é irmã da estudante Matheusa, que era trans e foi assassinada por traficantes no Rio em abril deste ano, e uma das mediadoras LGBTQ+ da exposição.
A performance surpreendeu o diretor do Parque Lage, Fabio Szwarcwald, e o curador da EAV, Ulisses Carrilho, que acompanharam o ato. Gabe espalhou carvão pelo chão da entrada do palacete do Parque Lage, e deitou nua com o corpo pintado de preto. Na sequência, começou a escrever as mensagens nas paredes.

Pense 2 vezes antes de nos expulsar sr. presidente diretor", diz uma das pichações. Em outra há a frase "Escola não é banco. Prédio público".
O letreiro da exposição "Queermuseu, queerescola, escola cuir" foi riscado e, embaixo dele, foi escrito "Farsa, apropriação, fogo nos racistas". Há também críticas mais gerais, como "Vidas LGBT+ importam". Nenhuma obra foi danificada.
Szwarcwald afirmou que considera "legítima" a manifestação e que não quis interferir no ato pois considera o local um espaço de liberdade. No entanto, disse não entender muito bem as críticas à direção da instituição.
— A gente abriu a escola e os contratou para mostrarem seu trabalho. Eles participaram de fóruns e debates. Não entendi a colocação dela. Acho que é contra toda a sociedade, e não contra mim, pois me dou superbem com ela — afirma Szwarcwald.

A equipe de mediadores de que Gabe fazia parte era formada por 33 pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero.
Procurada pelo GLOBO, ela afirmou que, por ora, não comentará a performance.
A exposição "Queermuseu" ficou em cartaz até o domingo (16) e lotou o Parque Lage com filas que chegavam a duas horas de espera. Cancelada em Porto Alegre pelo Santander Cultural após protestos de grupos conservadores que a acusavam de promover “pedofilia”, “zoofilia” e “blasfêmia”, foi viabilizada no Rio graças a um financiamento coletivo que arrecadou mais de R$ 1 milhão. Inaugurada em 18 de agosto, a mostra recebeu 40 mil visitantes segundo os organizadores.

Incêndio de grandes proporções destrói o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista

Um incêndio de grandes proporções destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio.
O fogo começou por volta das 19h30 deste domingo (2) e foi controlado no fim da madrugada desta segunda-feira (3). Mas pequenos focos de fogo seguiam queimando partes das instalações da instituição que completou 200 anos em 2018 e já foi residência de um rei e dois imperadores.
A maior parte do acervo, de cerca de 20 milhões de itens, foi totalmente destruída. Fósseis, múmias, registros históricos e obras de arte viraram cinzas. Pedaços de documentos queimados foram parar em vários bairros da cidade.
Segundo a assessoria de imprensa do museu e o Corpo de Bombeiros, não há feridos. Apenas quatro vigilantes estavam no local, mas eles conseguiram sair a tempo.
As causas do fogo, que começou após o fechamento para a visitantes, serão investigadas. A Polícia Civil abriu inquérito e repassará o caso para que seja conduzido pela Delegacia de Repressão a Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, da Polícia Federal, que irá apurar se o incêndio foi criminoso ou não.
Postagem feita pelo aluno Bernardo Gonçalves

'A arte sempre é legítima', diz curador da EAV sobre performance de artista com críticas à direção do Parque Lage
Ulisses Carrilho comenta, em texto, pichações de Gabe Passareli, mediadora do Queermuseu
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Pichação na parede da EAV - Reprodução
Irmã da estudante Matheusa, que era trans e foi assassinada por traficantes no Rio em abril deste ano, Passareli era uma das mediadoras LGBTQ+ da exposição. Durante a performance, realizada diante de Carrilho e do diretor do Parque Lage, Fabio Szwarcwald, Passareli escreveu frases como "Pense 2 vezes antes de nos expulsar sr. presidente diretor" e "Escola não é banco. Prédio público".
A equipe de mediadores de que Gabe fazia parte era formada por 33 pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero. O grupo foi criado para ajudar a contextualizar as obras do "Queermuseu".
Leia a resposta de Ulisses Carrilho na íntegra:
A performance é legítima, a arte sempre é legítima. Assim como os protestos e as críticas também são. Acompanhei a ação, mas não desde o início, pois estava dentro das Cavalariças. Há muitas camadas de significado na ação que foi feita: trata da violência colonial, de como as instituições têm ficado satisfeitas com seus discursos excludentes. Nosso racismo é estrutural. Há um uso das identidades minoritárias sendo feito largamente e isso, infelizmente, não é privilégio da arte, mas um movimento mais complexo, que envolve a imprensa, a publicidade, o entretenimento. O próprio projeto educativo era uma tentativa de resposta a esse uso dos corpos estranhos, desviantes, transviados com a pecha de queer mostra, sem convocar a representatividade. Falamos muito sobre desobediência,
indisciplina, insubordinação, que, particularmente, em minha pesquisa, são noções muito importantes para atualizar a própria noção de escola. No entanto, o que mais me emocionou ontem foi o fato da performance ter sido realizada pela irmã de Matheusa, Gabe Passareli, que integra o Núcleo de Ação Educativa da mostra. A frase que mais ressoa para mim, que tive a oportunidade de conhecer a Theusa e a complexidade de pensamento dela, é a que fala sobre os corpos virarem cinzas. A performance foi feita com carvão. Entendo a performance como um grito, um grito de insubordinação. Como sociedade, precisamos escutar esse grito. A própria Gabe falou sobre escuta quando esteve conosco no fórum, no dia em que palestrou. Fiquei muito emocionado ao vê-la deitada no chão, coberta de carvão, com os amigos em volta, como numa vigília, num gesto de cuidado. Essa família perdeu a Theusa por conta da violência de estadoe não teve a oportunidade de  enlutar, velar esse corpo. Esse gesto carrega a força e a radicalidade de corpos que estão sendo constantemente colocados num lugar subalterno. Quando lemos uma frase como "escola não é banco", mesmo que tenha sido escrita de maneira insubordinada, sem pedir autorização prévia, penso que é preciso que a gente pense sobre ela antes de emitir opiniões ou acusar um uso errado do espaço expositivo.
Nome: Luísa Antunes Resende
Postagem de artes





Cidade amanhece com lambe lambe como expressão de arte feminista

Ação tomou conta da Antônio Maria Coelho, na esquina com a Calógeras

A esquina da Antônio Maria Coelho com a Calógeras amanheceuno Dia da Mulher com lambe lambes feministas distribuídos por postes, muros e muretas da região símbolo de resistência do underground em Campo Grande. A ação anônima busca promover o debate e a reflexão sobre as curtas frases que homenageiam duas personalidades sul-mato-grossenses e questionam temas como livre escolha, liberdade sexual feminina, respeito a divesidade de gênero e enfrentamento à violência.
A violeira, parteira e rezadeira Helena Meirelles e a guerreira indígenas Márcia Guarani ganharam reconhecimento dentro da ação. De acordo com uma das organizadoras da movimentação, que preferiu não ser identificada, essas duas mulheres foram escolhidas por terem sua importância adormecida dentro da sociedade. “Pouca gente sabe do trabalho delas, cada uma em sua área, claro, mas com a mesma relevância”, diz.
As frases que lhes definem são: “A dama da viola, a flor da guavira, a raiz pantaneira, respeita as mina, respeita a nossa história”, e “Marta Guarani, a força das mulheres indígenas, guerreiras, na defesa de seu povo e território”.
As artes dispostas nos lambe lambe são de domínio público e foram estrategicamente escolhidas pelo grupo para promover a reflexão nesse espaço democrático e inconstante que é a rua. “É uma forma de intervenção criativa, com o poder de despertar as pessoas para reflexões que em geral não estão presentes naquele espaço, por mais que, entre nós, esses temas sejam constantemente debatidos”.
A ação foi feita no começo da noite de terça-feira, seguindo madrugada adentro pelas jovens mulheres. "O mês de março promove um debate sobre o feminino por conta do Dia da Mulher, então quisemos aproveitar o gancho".
As mulheres também colaram alguns deles em um tapume, na própria Antônio Maria Coelho, só que quase na esquina com a 14 de julho, em um imóvel que está passando por obras. Os lambe lambe foram arrancados, na verdade, quase arrancados. "A gente acredita que eles devem ter causado algum desconforto em relação aos trabalhadores que estão na obra e, numa forma de não pensar naquilo, foram retirados. Foi uma resposta bem chocante pra nós", finaliza.
Postagem para Artes


Mulheres sem candidato a presidente são o dobro de homens

A duas semanas do primeiro turno, o número de mulheres sem candidato a presidente é elevado: na pesquisa Datafolha da última quinta-feira, ao responder de forma espontânea à pergunta “em quem você vai votar?”, 51% delas afirmaram ainda não saber (38%) ou pretender votar nulo ou branco (13%), o que corresponde a 39,4 milhões de eleitoras. Na ponta do lápis, para cada homem sem candidato, há duas mulheres na mesma situação. A pedido do GLOBO, o Datafolha mapeou seu perfil socioeconômico. O resultado revela que 45,3% moram no Sudeste e 54% ganham até dois salários mínimos por mês.
Este grupo, que totaliza 27% de todo o eleitorado, pode definir quais candidatos irão para o segundo turno, o que vai exigir dos postulantes à Presidência esforço redobrado para conquistar sua confiança na reta final. Na avaliação de cientistas políticos, os dados detalhados da pesquisa refletem a frustração com os políticos e o pragmatismo do eleitorado feminino de baixa renda, que ainda não conseguiu identificar entre os candidatos uma resposta a seus anseios.

Postagem feita por Bernardo Gonçalves

Basquiat

Desde o dia 25 de janeiro está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) uma retrospectiva de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), pintor norte-americano de ascendência afro-caribenha e expoente do neoexpressionismo. Com entrada gratuita, a mostra reúne 80 obras, incluindo pinturas, gravuras, cerâmicas e desenhos, que devem ficar na capital paulista até 7 de abril para, em seguida, serem expostas nas sedes do CCBB de outras três capitais: Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. O conjunto de obras apresentado pela primeira vez ao público faz parte do acervo particular da família do industrial Mugrabi, de origem síria, radicado nos EUA, conhecido no mundo das artes como um dos maiores colecionadores tanto de Basquiat quanto do pintor pop Andy Warhol (1928-1987). Quem assina a curadoria é o holandês radicado no Brasil Pieter Tjabbes, da produtora Art Unlimited – que foi parceira do CCBB durante os dois anos de negociações da exposição que custou para os patrocinadores a bagatela de R$ 15 milhões. maio do ano passado, uma obra de Basquiat foi leiloada por US$ 110,5 milhões, o valor mais alto obtido pelo artista até então. O jovem pintor figura num seleto panteão de artistas cujas obras foram adquiridas por preços superiores a US$ 100 milhões - tais como Pablo Picasso, Alberto Giacometti, Francis Bacon e o próprio Warhol. "A obra do Jean-Michel Basquiat foi rapidamente reconhecida pelos colecionadores como algo de grande valor cultural, uma novidade. Com isso, ainda vivo, ele conseguiu vender obras por preços bem bons para a época. E depois da morte dele, os preços não pararam de subir", explica Pieter Tjabbes ao HuffPost Brasil. Em entrevista por telefone, o curador contextualizou o período e o ambiente em que Basquiat ascendeu, "uma Nova York à beira do colapso", explicou as principais características da obra e milItância do artista, que "usava todos os cantos da tela" e desfez alguns mitos que cercam sua história. O uso abusivo de drogas e a amizade profunda e produtiva que Basquiat teve com Warhol também foram destacadas pelo curador. "Eles tinham uma forma muito particular de dialogar como artistas", conta. Com base nas palavras Tjabbe, a seguir você acompanha 8 fatos sobre o artista que podem te ajudar a ver a exposição com outros olhos. 1. Basquiat fez parte de um movimento histórico numa NY caótica. "No final dos anos 1970, Nova York estava próxima de um colapso econômico. Isso possibilitou que toda uma geração de jovens se mudasse para a cidade tendo um custo de vida muito baixo. A moradia era de graça, por meio de ocupação de prédios ou sob pagamento de um aluguel muito barato. Criou-se assim um ambiente com uma liberdade muito grande para jovens talentosos dos EUA - e do mundo. Boa parte desses jovens se mudou para Manhattan - o que hoje seria impensável já que os preços de moradia são altíssimos. Eram pessoas de todas as áreas de criação: dança, música, poesia, escritores e pintores. E ela se encontravam nas ruas. Os artistas não tinham uma técnica determinada. Eles criavam de todas as formas. Muitos tinham bandas de música. O próprio Basquiat também formou uma banda chamada Gray, que tocava noise music. Ele tocava clarinete e se pautava também nos experimentos musicais de John Cage (artista norte-americano pioneiro na música aleatória e eletroacústica), nos quais os músicos tinham poucas instruções e cada um criava um ritmo, um som, sem muita conexão. Os artistas dessa geração tinham liberdade total de expressão. Tocavam música e ao mesmo tempo escreviam poesia e pintavam." 2. A arte de Basquiat é dotada de assinatura própria. "Basquiat faz parte de uma geração cujo trabalho foi chamado por críticos de neoexpressionismo. Esse foi um momento de retorno à pintura; a figura do artista voltou a ser algo central nas obras, as emoções voltaram a transparecer nas telas. O final dos anos 60 e início dos anos 70 foram dominados por alguns movimentos como o minimalismo, arte conceitual e pop art. São todos momentos na arte em que a figura do artista era menos importante. A arte havia se distanciado da personalidade e da emoção dos artistas. A pintura tinha perdido muito da sua importância. Os artistas minimalistas, por exemplo, mandavam fazer suas obras para que a "mão" deles não aparecesse nas telas. Nesta época, a pintura foi declarada morta. A geração do neoexpressionismo trouxe a pintura de volta. Os artistas começaram a pintar com pinceladas dotadas de energia, emoção e liberdade de criação." 3. As obras dele misturam diferentes linguagens. "A obra de Basquiat é um típico exemplo da geração de sample. Ele compôs os quadros com elementos que juntava – tanto imagens quanto palavras. Nas obras, ele usa as palavras mostrando que elas significam algo e também dá a elas a representação de imagens. Ele costura figuras, parte com planejamento, parte de forma poética. O método da colagem, que é também uma característica da arte do século 20, é muito presente na obra dele. Ele colava papéis, desenhos próprios e também xerox coloridos e pintava por cima. Ele tinha uma coleção de livros que consultava – tanto sobre História da arte quanto de outros temas. Existe um livro específico que teve um impacto muito grande sobre ele. Era um livro sobre anatomia (Anatomia de Gray, publicado em 1858 por Henry Gray), que ele ganhou de sua mãe quando tinha 7 anos, depois de sofrer um acidente de carro. Os desenhos do corpo humano que ele viu na publicação lhe causaram impacto, fazendo que ele inserisse anos depois essas imagens em suas obras. É importante dizer que os quadros de Basquiat por vezes não tem um centro. Ele trabalhava todos os cantos da tela. Na obra dele, as linguagens se misturam. É difícil dizer em que ponto o quadro vira um desenho e quando o desenho vira um quadro." 4. Basquiat não era grafiteiro. "Ele não pode ser considerado como um artista grafiteiro. Isso é muito claro. Ele começou a carreira em 1977, 1978 junto com seu amigo Al Diaz. Eles pintavam rases enigmáticas - às vezes poéticas - nas paredes de Manhattan sob o pseudônimo SAMO (de same old shit ou mesma merda, em português). Apesar de serem feitas com spray, uma forma de expressão de arte de rua, elas [as intervenções] eram muito mais obras conceituais do que propriamente grafite. Ele também fez isso apenas durante um ano. Na exposição a gente mostra esse período através de algumas fotos tiradas na época. O que ele leva para a sua obra é esse aspecto do dinamismo do grafite, da forma inacabada que um grafite tem. Os quadros dele mantêm essa energia. Ele falava em entrevistas que sabia desenhar, mas que lutava contra isso. Ele fazia de propósito desenhos mal acabados. Porque ele achava que isso trazia uma energia mais interessante." 5. Basquiat gozou de estrondoso sucesso durante sua curta vida. "A obra do Jean-Michel Basquiat foi rapidamente reconhecida pelos colecionadores como algo de grande valor cultural, uma novidade. Com isso, ainda vivo, ele conseguiu vender obras por preços bem bons para a época. E depois da morte dele, os preços não pararam de subir. Os museus sempre têm uma certo atraso na aquisição de obras de artistas muito jovens. Basquiat morreu quando tinha apenas 27 anos. Aos 20 e poucos, ele já tinha um sucesso tremendo. Quando os museus começaram a se interessar pela obra dele, os preços já estavam proibitivos. Como consequência, não há hoje muitos museus com obras dele no mundo. Os mais importantes já têm — por doação ou por outros motivos. Mas as instituições não conseguem mais pagar os altos preços praticados." 6. O fato de ser negro fez com que ele vivesse grandes contradições. "O fato de Basquiat ser negro influenciou bastante a carreira dele. Ele era um dos poucos artistas afro-americanos num mundo artístico que era predominantemente branco. Ele, desde o início, usou essa condição para homenagear músicos de jazz e atletas negros – duas áreas onde os negros tinham voz e recebiam admiração. Ele também usava essa condição de forma crítica. Era uma personalidade que tinha um sucesso considerável. Quando ia para a vernissage de uma exposição, ele era a estrela da noite. Mas quando saía da galeria, o táxi não parava para ele na rua porque ele era negro. Basquiat viveu muito essa contradição. E ele chamou a atenção em alguns de seus quadros para a falta de diversidade no mundo artístico e para os traumas sofridos pelos negros nos EUA." 7. A amizade com Andy Warhol foi algo crucial em sua carreira. "Ele fez uma série de pinturas junto com Andy Warhol, uma colaboração bem interessante. Warhol e Basquiat se conheceram e automaticamente gostaram da energia e criatividade um do outro. E resolveram fazer quadros em conjunto. Fizeram mais de cem obras, boa parte de grande porte. Um pintava uma coisa e o outro pintava por cima. Normalmente, o Warhol fazia uma projeção pintada à mão de uma imagem - um cachorro ou uma cabeça, por exemplo. E isso também era uma novidade porque Warhol nessa época [início dos anos 1980] já não pintava mais. Ele usava o método de serigrafia, quem pintava eram os seus assistente. Basquait incentivou ele a voltar a pintar. Os dois foram importantes um para outro. Eles tinham uma forma muito particular de dialogar como artistas. E eles tinham também uma grande amizade, que foi muito importante para Basquiat, pois dava uma certa segurança para ele." 8. Assim como o uso (e abuso) de drogas. "Uma coisa importante que vale ser ressaltada é a questão das drogas. Na época que Basquiat ficou em evidência havia liberdade tanto no que dizia respeito à criação quanto ao sexo e ao uso de drogas. Quase todo mundo do meio artístico nesse tempo usava drogas. Basquiat morreu de uma overdose. Ele não conseguiu controlar a ansiedade do uso. Andy Warhol também usava e foi uma pessoa importante na vida de dele porque dava conselhos para esse jovem artista. Warhol era uma das poucas pessoas que tinham um certo poder sobre Basquiat. Quando Warhol morreu, em 1987, Basquiat perdeu o chão." https://www.huffpostbrasil.com/2018/02/03/basquiat-no-ccbb-8-coisas-que-voce-precisa-saber-sobre-o-pintor-antes-de-ver-a-exposicao_a_23352060/

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