RIO — Muitas vezes colocados em campos opostos, os universos do samba e das artes visuais têm uma longa história de contatos e cruzamentos, que vão da produção pictórica de sambistas como Heitor dos Prazeres e Nelson Sargento às contribuições de ex-alunos da Escola de Belas Artes aos desfiles carnavalescos — alguns dos quais transformaram a dinâmica do espetáculo, a exemplo de Fernando Pamplona e Rosa Magalhães.
Essa ligação é um dos pontos centrais da exposição “O Rio do samba: resistência e reinvenção”, que vai ocupar o Museu de Arte do Rio (MAR) a partir de amanhã com cerca de 800 itens, entre pinturas, esculturas, objetos, fotos, vídeos e material documental. A mostra é dividida em núcleos temáticos que apresentam o desenvolvimento da cultura do samba no Rio, desde a herança trazida pelos diferentes grupos de africanos escravizados à presença desta expressão como um dos marcos identitários brasileiros.
A exposição reúne obras de artistas do século XIX, como Debret e Rugendas, até a produção contemporânea de nomes como Jaime Lauriano e Dalton Paula, passando pelos modernistas Portinari e Di Cavalcanti. Assinada por Evandro Salles, diretor cultural do MAR (realização da Prefeitura do Rio em parceria com a Fundação Roberto Marinho) e pelos curadores Clarissa Diniz e Marcelo Campos, a coletiva contou com o compositor e escritor Nei Lopes como curador convidado.
— Começamos a pesquisa há cerca de um ano e decidimos convidar um curador externo com larga experiência neste universo, ao mesmo tempo que, através de sua pesquisa, nos ajudasse a construir uma abordagem conceitual e crítica sobre a trajetória do samba no Rio — explica Salles. — Não queríamos nos restringir a uma narrativa alegórica, centrada só na música ou na dança, e sim tratar do universo que o samba engendra, com suas complexidades.

Um dos momentos-chave da relação entre o samba e as artes visuais, a tentativa frustrada de Hélio Oiticica de entrar no MAM com integrantes da Mangueira na abertura da mostra “Opinião 65”, é abordada em “O Rio do samba” pela presença de réplicas de Parangolés (que podem ser vestidos pelo público) e imagens do artista com integrantes da escola.
— Talvez Hélio seja o artista que tenha conseguido lidar melhor com as contradições desse processo, quando ele entende, por meio da Mangueira, que a arte não é um objeto isolado de um complexo cultural em que está inserida — analisa Clarissa. — Os Parangolés surgem como este ponto de virada, em que ele explode a moldura, o objeto, e transporta a arte para o corpo, o imaterial, o tempo.
Contando também com obras comissionadas — como a instalação criada em parceria por Ernesto Neto e o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, para a Sala de Encontro — a exposição reflete, a partir da produção contemporânea, questões relacionadas a temas como a escravidão e segregação social. A participação de artistas negros ou com trabalhos relacionados à cultura negra reforça a pluralidade da narrativa.
— Desde a implantação das cotas, vivenciamos o aumento da presença de artistas negros na cena contemporânea — destaca Marcelo Campos. — Por outro lado, precisamos rever os modos de abordar estes assuntos. A mostra não traz correntes ou instrumentos de suplício para falar da escravidão, são coisas que a população negra não quer ver. Mas fazemos isso sem simular uma naturalidade nas relações, ainda há muita luta e resistência para conquistar espaços.
Para Nei Lopes, a criação de uma narrativa dentro de uma perspectiva histórica sem apagar as tensões sociais e culturais é um dos pontos centrais da exposição.
— A reinvenção está exatamente em nossa meta de deslocar o foco do evento carnavalesco, como sempre é feito, para uma visão mais ampla e completa — aponta o curador convidado, que reforça a relevância da presença de autores negros na mostra. — É importantíssimo que nós artistas negros sejamos não só o corpo mas também o espírito e a voz de nossas criações. Isso ainda não tem sido totalmente possível, mas estamos no caminho.
Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/o-rio-do-samba-reforca-ligacao-entre-genero-musical-artes-visuais-22632124#ixzz5Ekp9rPSj
stest




Direito de imagemSAMSImage captionAs legendas neste desenho dizem: "Força aérea de Assad (presidente da Síria)", "ambulância", "as crianças de Khan Sheikhoun" e "sangue das crianças". Segundo a ONU, a cidade de Khan Sheikhoun foi palco, em abril de 2017, de um ataque químico promovido por forças do governo e que deixou dezenas de mortos, entre eles, várias crianças; o governo nega ter realizado o ataque.
Direito de imagemSAVE THE CHILDRENImage captionAs palavras escritas em vermelho dentro das lágrimas dizem: "Bela Síria".
Direito de imagemSAMSImage captionEste desenho mostra um aparente ataque aéreo com mísseis atingindo um edifício. O texto acima do soldade que dispara uma metralhadora diz: "Este é nosso exército de resistência. Nação, honra e lealdade".
Direito de imagemSAVE THE CHILDRENImage captionEste desenho mostra um adulto de pé ao lado de um cadáver. "Isto é a Síria", diz a frase escrita acima do desenho. O médico Hamza, neuropsicólogo da Sociedade Médica Sírio-Americana, diz que as crianças que conheceu se mostraram desprovidas de qualquer esperança no futuro.
Direito de imagemSAMSImage captionMais da metade da população da Síria foi desalojada por causa da guerra. Mais de 5,6 milhões sírios deixaram o país. Apesar dos riscos em cruzar o mar Mediterrâneo em embarcações inadequadas e controladas por coiotes - muitos barcos viraram ou naufragaram, deixando centenas de mortos - milhares de refugiados têm buscado asilo na Europa. Desenho feito por uma criança mostra uma embarcação no mar com um grupo de pessoas à bordo e outras na água.
Direito de imagemSAMSImage caption"Minha pátria", diz a legenda acima do desenho. Mais de 118 mil sírios foram presos ou desapareceram desde 2011. A grande maioria foi detida por forças governamentais, de acordo com a Rede Síria pelos Direitos Humanos, um grupo de monitoramento internacional.
Direito de imagemSAMSImage captionA legenda na parte superior do desenho diz: "Irmãos: Safa, Zahra, Fatima, Osama, Joud". A legenda na parte inferior do desenho diz (da esquerda para a direita): "Meu pai em 2010", "Meu pai em 2011", "Meu pai em 2014".
Direito de imagemUNICEFImage captionMyassar, de 14 anos: "Eu desenhei a mim e à minha irmã chorando quando meu pai nos deixou, há dois anos. Não sabemos nada dele. Esta é minha lembrança mais triste".
Direito de imagemSAMS/AFPImage captionEste desenho de uma criança síria parece mostrar a torre do relógio, na praça central de Homs, como era antes e depois da guerra. A terceira maior cidade da Síria já foi considerada a "capital da revolução" contra o president Bashar al-Assad. Ela foi devastada no enfrentamento entre governo e forças rebeldes.
Direito de imagemSAMSImage captionDesenho cita poema famoso no mundo árabe que se tornou grito de guerra durante os protestos da Primavera Árabe.