Durante este mês de julho, quem desembarca na estação central de Zurique se depara com uma enorme árvore feita de crochê. A peça, uma escultura interativa do carioca Ernesto Neto, impressiona pela magnitude e traz a Amazônia para o coração da cidade mais movimentada da Suíça, por onde circulam 460 mil pessoas a cada dia.
A exuberância da natureza, as cores intensas e o uso inusitado do artesanato são características dessa obra brasileira de 2 mil metros quadrados e 1,5 tonelada, que ostenta o recorde de ser a maior intervenção já montada no localOs 10.220 metros de tecido utilizados na confecção da obra GaiaMotherTree impressionam, mas são apenas o último desenrolar de um flerte que há muito já se estabelece entre o olhar suíço e a arte brasileira, um relacionamento que chega a movimentar quase US$ 5 milhões (R$ 18,6 milhões) por ano.
Para além da atual intervenção, o país europeu tem um museu dedicado exclusivamente à arte brasileira, além de acolher renomados artistas, coleções e galeristas e fomentar o mercado através da organização de feiras e do subsídio a novos talentos.
"Na verdade, se você for puxar o fio da história, a atração é antiga", conta Letícia Amas, uma galerista brasileira radicada em Genebra.
"Desde a época em que Jean-Pierre Chabloz se encantou com o naïve Chico da Silva essa fascinação já existia", diz em referência ao curador suíço que descobriu o artista primitivista brasileiro no século 20 em Fortaleza.
'A arte brasileira é espontânea e democrática'
A própria Letícia Amas é um exemplo dessa ponte. Morando na Suíça desde 2006, a jornalista é dona da conceituada Galeria Espace_L de Genebra.
"Tudo aqui é como se fosse muito pensado, conceitual, refletido. No Brasil, a arte é espontânea. A nossa adversidade é que nos permite uma outra criação. Isso fascina porque está fora das normas", argumenta.
Michiko Kono, curadora da prestigiada Fundação Beyeler da Basileia e organizadora da exposição GaiaMotherTree, concorda.
"Não há um conceito elitista por trás (da arte brasileira). Você não precisa ser um especialista em arte contemporânea com um grande conhecimento para entendê-la e apreciá-la."
A Fundação Beyeler é conhecida pelo vasto acervo de mestres como Monet e Picasso e, anteriormente, já mirou seu holofote para outros brasileiros, como a gravurista Beatriz Milhazes.
Kono explica que a fascinação suíça por instalações como a árvore gigante se origina da abordagem "democrática" que a arte brasileira propicia. O artista oferece ao público a oportunidade de viver as emoções.
Nessa obra, por exemplo, as pessoas são convidadas a utilizar o espaço dentro da escultura livremente para recreação, meditação e relaxamento. "Esse é um espaço público, e essa obra é sobre intimidade", resumiu o criador Ernesto Neto.
Artes
fonte: https://www.bbc.com/portuguese/geral-44940371
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