domingo, 11 de novembro de 2018

de Letras'

O desenhista carioca preferiu selecionar apenas escritores ao editar o livro, que será lançado nesta terça, 13, em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo
11 Novembro 2018 | 06h00
Gente de Letras traz na capa um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis (1839-1908), o escritor predileto de Loredano, que desenhou o mais elegante retrato do bruxo de Cosme Velho de que se tem notícia. Essa elegância resulta principalmente da busca de um traço sintético, minimalista, e do uso econômico do preto e branco, como um Saul Steinberg que trocou o humor pela observação dos traços psicológicos de seus personagens. A exemplo daquilo que Baudelaire chamou de “estética caricatural’, nos desenhos de Loredano o artista busca a fusão da forma e da ética – daí ter escolhido os escritores como protagonistas de seu livro, e não os políticos. 
No livro há autores brasileiros e estrangeiros, de Lima Barreto a Marguerite Yourcenar, passando por Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Freud, James Joyce, Nabokov, Arthur Schnitzler, Georg Trakl e Virginia Woolf. A seleção foi feita sobretudo com material das colaborações de Loredano no EstadoGlobo e revistas como Veja. Nos cadernos culturais desses veículos o artista teve a liberdade de desenhar seus tipos prediletos, que ele chama de “animais literários’. Intelectual de sólida formação, Loredano passou pelas redações de alguns dos mais importantes jornais, entre eles o alternativo Opinião, nos anos 1970. Mais tarde, ao morar na Europa, colaborou com o jornal alemão Frankfurter Allgemeine e o francês Libération, entre outros.
Loredano lança livro de caricaturas em São Paulo
Freud no traço de Loredano, que desenhou o criador da psicanálise em 2014 Foto: Cássio Loredano
O livro não segue a ordem cronológica da publicação das caricaturas, mas a alfabética, pelo sobrenome, cabendo ao escritor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) a primazia de ocupar a primeira página após a apresentação do autor. Tipos longilíneos como Abreu – Bernard Shaw, Drummond, D. H. Lawrence e Fernando Pessoa – são representados como figuras hieráticas, giacomettianas, no limiar do desaparecimento. Já os gordinhos, como Marx, Flaubert e Alejo Carpentier passam por uma deformação expressiva que, contudo, não corteja o grotesco – Loredano, sempre discreto, está longe dos exageros de Hogarth e Daumier, a despeito de ser igualmente engraçado.
Um dos curadores da exposição de Millôr Fernandes, em cartaz no Instituto Moreira Salles, outro desenhista estreitamente vinculado à literatura, Loredano já foi associado (pelo editor Pedro Corrêa do Lago) ao grande caricaturista argentino Luis Trimano, cinco anos mais velho que o carioca, pelo modo como acentua essas distorções para revelar traços da personalidade do retratado ou chegar próximo ao perfil psicológico desses escritores. A diferença é que a influência do expressionismo alemão na obra de Trimano é perfeitamente visível. Mas, como seus colegas que colaboraram com o Pasquim (Loredano, inclusive), a referência máxima deles foi mesmo Saul Steinberg, que Pietro Bardi, o criador do Masp, introduziu no Brasil.
Steinberg foi um dos primeiros caricaturistas a desenhar óculos como metáfora do pouco alcance da visão humana. Loredano seguiu a pista e trocou os óculos por olhos exageradamente pantagruélicos, que saem de órbita, como os de Kierkegaard, Euclides da Cunha e Montaigne. Uma observação: o caricaturista brasileiro também recorreu aos óculos distorcidos como Steinberg – e há alguns exemplos no livro, como os retratos de Elias Canetti, Marguerite Duras e Max Frisch. Loredano é uma enciclopédia ambulante da caricatura e da ilustração no Brasil, tendo publicado vários livros sobre os geniais J. Carlos, Nássara e o próprio Trimano. A diferença é que agora ele faz, em Gente de Letras, o próprio dossiê, que já nasce histórico

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