Carta ao Leitor: O veneno do radicalismo
Chama atenção que
os políticos brasileiros tenha reagido com tamanha leveza ao atentado a tiros
contra o acampamento em favor do ex-presidente Lula
Com um talento inigualável para
tomar sistematicamente o caminho errado, o grosso dos políticos brasileiros
parece cada vez mais alheio à realidade. Chama atenção que tenha reagido com
tamanha leveza à notícia de que houve um atentado a tiros contra o acampamento
em favor do ex-presidente Lula montado nas cercanias de sua prisão, em
Curitiba. O crime foi recebido como se fosse um acontecimento desagradável mas
não de todo intolerável, uma decorrência apenas incômoda das agruras da vida
política, quando, na verdade, é a mais recente expressão de como o veneno do
radicalismo vem se espalhando por certos setores da sociedade brasileira.
É evidente que os militantes do
PT, agora vítimas de uma ação armada inadmissível, também ocupam a posição de
autores de barbaridades, como na recente agressão a um cidadão, em frente ao
Instituto Lula, em São Paulo, que acabou hospitalizado com traumatismo
craniano. É a mesma expressão da ameaça venenosa do radicalismo, apenas com o
sinal ideológico trocado. É espantoso que as autoridades políticas possam
imaginar que a reação adequada a esse tipo de ataque violento seja a quase
indiferença.
No atual ambiente político
brasileiro, é notório que a crítica ao petismo e a seu maior líder acabou
gerando, no outro extremo, um bolsonarismo vulgar e regressivo. Nesse contexto
radicalizado, “adversários” viram “inimigos” e caem as barreiras que
normalmente impedem o avanço de uma ideia malsã — como que inspirada num
Herodes mandando matar todos os bebês de Belém — segundo a qual a melhor solução
é a eliminação física dos opositores.
Outro
sintoma dos males do radicalismo produzido pelo mesmo ambiente de polarização
exacerbada está descrito em artigo de J.R. Guzzo, publicado nesta edição. Com
sua clareza proverbial, Guzzo encarrega-se de mostrar como a assombração de um
golpe militar parece ganhar a simpatia de uma camada de eleitores. É custoso
acreditar que um golpe possa parecer uma solução conveniente para um país que
passou 21 anos sob regime militar, convivendo com prisões arbitrárias, porões
de tortura, censura à imprensa, cassação de mandatos e votos, exílio e
assassinatos. Quebrou-se, até, o consenso de que o regime de 1964 consistiu
numa ditadura. Há quem creia que era uma modalidade de democracia. Ora, um
regime em que opositores, de direita ou de esquerda, não têm direito a voto,
nem a voz, nem à liberdade e, em alguns casos, nem mesmo à própria vida, pode
ser qualquer coisa, menos uma democracia.
Postagem feita por: Luísa Antunes Resende
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